A morte do amor





Todo amor morre. Sinto em ser portadora dessa triste e inoportuna notícia, mas todo amor morre. Amores bonitos, impulsivos, cúmplices, rotineiros, juvenis, maduros, impossíveis, platônicos, correspondidos: todos eles morrem. Não importa se são bonitos e sinceros: todos morrerão. De forma súbita ou lenta. Mas a maioria morre mesmo é de “morte matada”.

O amor morre na ignorância e estupidez dos seres humanos. Morre na constante busca pela “massagem no ego”, pela satisfação pessoal em querer e ter sempre alguém diferente. O amor morre quando nos traímos: ao que sentimos, ao que queremos, ao que prometemos. Na verdade o amor morre quando a gente trai a nossa essência. Pior do que trair a confiança do outro é trair a nós mesmos. O amor morre nas palavras não ditas. Nas palavras ditas em excesso. Nos exageros de vaidade. Na ausência, e morre na presença de quem nunca está.

O amor vai morrer e todas as lágrimas secarão. Não há porque escorrer lágrimas de saudades ou ansiedade para o que não existe mais. Não há como sentir falta do que nunca existiu. A saudade, assim como todos os sentimentos que vem juntos com o amor, é viva e lateja por aquilo que respira. Não há como correr sangue pelas veias por algo que morreu. Por um cadáver de sentimento.

Todos os amores morrem e vão para o céu dos sentimentos ou para um lugar bem escondido dentro da nossa alma. A alma guarda e suporta para quem sabe um dia - esse amor - volte a nos fazer acreditar que de alguma forma, a próxima vez será eterna.


Quando é amor...




Um “viva” ao amor que não nos sufoca. Que não nos prende a todo custo. Aquele amor que não “precisa está perto para estar junto”, que mesmo longe compartilha o melhor da vida com você.

Amor que é amor, não precisa de explicação, justificativas ou razões para existir. A gente sente, e pronto. Amor que não nos tira o sorriso, que não nos cobra a perfeição ou coerência. Aliás, coerência para quê?

Amor quando é amor mesmo, entende, espera, supera, sobrevive, resiste. Apesar de tudo, apesar do tempo e apesar dos pesares. Amor quando é amor, não existem “donos”, existem cúmplices, que se admiram, se apoiam, se sentem. Não é preciso estar “lado a lado”. É preciso estar dentro.

Amor quando é junto, é intenso, em dobro, maiúsculo, alegre... Nada mais importa no momento do encontro em um. Somente a vontade de se olhar, sorrir, conversar, se entrelaçar.

Amar não é sofrer. É poder. É ser. E crer que tudo vai dar certo. Que a hora vai chegar, que as mãos dadas serão mais frequentes e sinceras.

Amor quando é amor, não precisa de exposição, de aprovação pública ou “honras públicas ao mérito”. Amor quando é amor é entre dois, que por si só se bastam.

 Como nos diz Fabrício Carpinejar,

“Liberdade na vida é ter um amor para se prender. É aquela vontade danada de andar de mãos dadas durante o dia e de pés dados durante a noite”.






Que seja leve...




Não sei que graça ou desgraça é essa de necessitar escrever tudo o que sinto. As sensações vêm na minha cabeça e ficam “martelando” até encontrarem um caminho: o computador, a agenda, o celular...

Escrever é uma forma de autoamor. 

Nada mais é do que emprestar a própria atenção a si mesma. É o olhar para dentro, e enxergar o que tem de mais íntimo e criativo dentro de si. Já ouvi por aí que “escrever nos poupa idas ao psiquiatra”. Bem por aí...

Eu tenho um ano inteirinho para me emprestar a vocês. Escrever e reescrever tudo o que estiver sentindo ou imaginando.

Pouparei idas ao psiquiatra. E espero que - com isso - leve alegria e amor com muita poesia a todos vocês.

2014 começou. E que seja leve!



Metrô





Naquele dia, sentada na cadeira de espera do metrô, aquela senhora veio, segurou a minha mão e disse que você viria. Eu não sabia quem era você. Você não existia, não respirava. Não te sonhava. Nem te esperava. Só uma louca romântica acreditaria que um estranho enviado de outro planeta iria pousar perto e nunca mais querer ir embora. Eu tive medo de imaginar que você poderia ser real. O amor não existia, e nem poderia ser sonhado em uma tarde à espera do metrô.

Meus pés estavam fincados no chão. Dali não sairia. Dali ninguém me tiraria. Todas essas histórias de amor ridículas, contadas por filmes ridículos de autores ridículos não existiam. Tudo mentira. Balela. Ninguém sairia de nenhum lugar do mundo e viria me salvar daquele mundo em preto e branco a troco de nada, nem de todo amor que eu pudesse doar.

Então voltei a ler o meu livro cheio de teorias em “como escrever um artigo”. Artigos sobre histórias reais, de passados distantes, no qual não havia espaço para frases melosas e românticas e idiotas. Todas as palavras grifadas daquele livro não consistiam em saudades, estar junto ou o amor da vida. Amor da vida não existia. Teorias sim. Realidade também. Não se podia sonhar por um amor à espera do metrô.

Talvez não devêssemos mesmo sonhar por um amor que vá largar tudo para te ver. Que faça você se sentir a única. A mais bonita. A mais inteligente. Aquela que vale a pena abraçar por uns segundos. Sem sonho, sem apego. Sem sofrimento.

Sem sofrimento, mas também sem saber como seria depois de tantas esperas e datas adiadas olhar nos olhos desse tal amor que veio de outro planeta para te salvar.

Sem apego, mas também sem sentir a respiração ofegante daquele que largou tudo para te dar amor. E fazer você se apegar, e se entrelaçar, e desesperadamente não acreditar que ele realmente existia.

Sem sonho, mas também sem sentir o coração aquecido. Mesmo que ele congele depois. Mas passar a vida sem saber que esperar o metrô e sonhar com o amor da vida é tão mais lindo do que só enxergar duas cores ao seu redor...

Eu me permiti sair do preto e branco e enxergar o colorido de dentro do fundo dos teus olhos. Eu me apeguei naquela música daquele filme romântico idiota que de tão idiota me fez suspirar. Eu suspirei e eu gostei de suspirar e sonhar. Eu não senti medo de estar daqui a um mês ou cinco anos sem você. Eu não senti medo de sofrer. Eu só queria viver aqueles dias. Eu só queria te guardar por toda vida. Até em outras vidas se fosse possível.

Já marquei encontros com você daqui a vários séculos. Já fiz pactos com os deuses do amor para que nada nessa vida te leve para longe de mim. Já fiz planos pra daqui a dez anos. Planejei nossas férias para algum lugar que tenha a nossa praia e o nosso pôr do sol, mais ou menos daqui a uns vinte anos...

Fiz todos esses pactos, planos e delírios em uma tarde, à espera do metrô. Dias depois de você ter vindo e me tirado do preto e do branco. 

Você me salvou...











Calma




Um dia isso tudo vai ser acalmar. Não costumo prever o futuro, mas sei exatamente o que irá acontecer: Vamos nos falar todos os dias, e dizer que nos importamos sempre. Quando eu sentir saudades – no meio do meu dia atribulado – olharei para dentro de mim, acredite, você está aqui, como ninguém nunca antes esteve. Irei frequentar os lugares comuns, tomar três chopes e brindar em sua homenagem. Eu brindo daqui. Você daí.

Qualquer dia brindaremos juntos. Vamos rir daquelas bobeiras que insistem em apertar nossos corações e que nos fazem perceber o quanto somos importantes um para o outro. Eu vou te contar todos os meus segredos, olhar nos seus olhos e me sentir segura. Vamos entrelaçar nossas almas mais uma vez, cada vez mais. Vamos cumprir o que já estava traçado antes mesmo de nós dois respirarmos. Fomos/Somos feitos um para outro.

Um dia isso tudo vai se acalmar. Tudo vai pegar fogo. Vai ter o dia a dia. O café, o almoço e o jantar. Vai ter o silêncio, mas saberemos que o outro estará ali, a poucos metros de distância. Ao alcance da alma. 

Terá calma. Alívio.

Dúvidas





Talvez eu não seja tudo o que você queria. Talvez. Eu gosto disso. Não gosto de certezas entre nós. Eu preciso e quero te prender comigo pela minha capacidade de te causar dúvidas.

Certeza do meu amor, só entre nós. A dois. Em um.

Você sempre diz que precisa de mim. E que nós fomos feitos um para o outro. Que somos almas gêmeas. Que o destino e as coincidências nos uniram.

Mas entre nós nunca haverá certezas. Porque o nosso amor é movido pela nossa curiosidade um no outro: O que eu faço. Com quem você anda. Pelo que nós suspiramos?

O motor do nosso amor é a nossa individualidade, que de tão individual termina nas longas conversas movidas a informações e cumplicidades que não compartilhamos com ninguém. É natural: eu termino o meu dia em você. Meus medos. Meus sonhos. Minhas frustrações. Meus desejos.


Nem toda a certeza do mundo me faz acreditar que tudo isso é para sempre. Mas todas as dúvidas me dão a dimensão do quanto tudo isso será eterno. 

Desconhecido







No fundo sempre sonhamos em encontrar alguém que supere toda a nossa existência. Alguém que vai nos fazer perder noites frias de sono e vai nos acompanhar, mesmo que em pensamento, em dias quentes de verão, em frente ao mar ou em frente ao ponto de ônibus.

Lá fora existe alguém que não conhecemos ainda. Um desconhecido que gosta das mesmas músicas que a gente, lê os mesmos livros e tem o senso de humor que combina com as nossas gargalhadas. Não necessariamente nessa ordem.

No fundo, no fundo... sempre queremos alguém para ligar no final do dia. Alguém para dizer “vem para mim”. Por trás de toda essa modernidade vazia de casais instantâneos, o que queremos mesmo é dividir o controle remoto e ser o “friozinho no estômago” de alguém.




Mistura





Eu não costumo dizer a frase batida de “quem se define se limita”. Eu me defino sem me limitar porque sou uma mistura de um eterno querer. E eu quero tantas coisas que não cabem em mim, mas que sempre encontro espaço para guardá-las dentro dos meus sonhos.

Sou tudo o que vivi e que ainda irei viver.

  
Eu sou aquele telefonema inesperado. Sou a risada dentro do mercado porque não consegui achar a sessão de detergentes. Sou o dormir até mais tarde. Sou o silêncio e falação fora do comum. Sou meus livros na estante. Sou o tênis colorido e o óculos escuro que não sai do meu rosto. Sou os choros noturnos. Os filmes de comédia romântica que estragam a minha vida, mas que não consigo deixar de ver. Sou a guitarra que grita nos meus ouvidos. E as músicas românticas que me dão a dimensão do quanto sou uma "boba".


Sou os shows de Rock que me arrasam – nos pés e nos bolsos – mas que me dão a sessão de liberdade que sempre desejei. Sou conversas na calçada. Sou um dia de sol. Sou praia. Sou minhas corridas matinais. Sou meus jeans rasgados. Sou meus fones de ouvidos. Sou um sorriso inesperado. Sou minhas piadas sem graça. Sou a minha insistência no ser humano. Sou mãe. Sou mulher. Sou romance. Sou amor. Sou paixão. Sou temperamento forte. Sou do contra. Sou trabalhar por amor. Sou a professora. Sou a tia. Sou meus textos. Sou desabafo. Sou saudade. Sou Botafoguense. Sou sonhadora. Sou míope. Sou insônia. Sou louca, maluca beleza. Sou a mistura do que é certo e do que é errado. Sou amiga dos meus amigos. Sou coração. Eu sou o que escrevo. Sou o que eu digo. 

"Eu nasci para ser feliz. Não para ser normal".

Sonho





Essa noite sonhei com você. Foi estranho, porque desde o dia em que você se foi eu nunca mais sonhei com você. Eu lembro que meses antes de você ir, eu sonhei com você uma semana inteira. Todas as noites. Diversos sonhos.

Na verdade parei de sonhar com você porque pedia sempre para não sonhar com você. Bloqueei você da minha mente desde o dia em que você se foi e eu não estava lá para dizer “então até um dia”.

Saber que parte da minha vida se encerrava ali era dolorido demais para acreditar que aquele nosso cotidiano está guardado comigo e eu  não vou mais poder me aconchegar no seu colo e relembrar os “melhores momentos de nossas vidas”.

As pessoas que te conheceram mais nova, me acham parecida com você. O olhar, o jeito, a aparência física. E às vezes eu fecho os olhos para fixar a sua imagem na minha memória e fotografa-la para nunca mais esquecer que você se parece comigo e eu pareço com você.

Nem sei onde quero chegar com esse texto. Na verdade eu sei. Eu não quero chegar. Quero voltar. Quero voltar para os primórdios da minha infância e te ver novamente, mais uma vez, fazendo o meu café da tarde e, após isso, dizer para todo mundo que “eu não almocei direito, mas o meu lanche da tarde me reforça”. Ou ver você me defendendo de alguma peraltice e do qual “eu nunca tinha culpa de nada”.

Talvez você apareceu no meu sonho para dizer “que nem tudo está perdido” ou que “viva e deixe viver”. Eu sei por que você apareceu. E eu sei que não estou sozinha nessa vida.





Alma







Chuva, café e um clima frio no primeiro dia do mês de março. O pensamento vai longe. Conto os pingos que caem e se amontoam na janela do quarto. Nenhum desses pingos é igual, penso eu com os meus botões. Ser igual para que mesmo?


As grades da janela transmitem a estranha sensação de aprisionamento. Mas nem as grades, nem a sensação estranha e nem a tarde chuvosa e fria conseguem conter os pensamentos que, livres por natureza, correm de encontro ao que me faz bem.

Os dias têm sido intermináveis e rotineiros. Os afazeres e os compromissos me consomem. Os problemas diários também. Não tem para onde correr. Tem que ficar e resolver. Mas ai de mim ou de nós, meros mortais, se não existissem as lembranças e a capacidade de nos transportar aos momentos que nos preenchem e que, em dias chuvosos e frios como os de hoje, nos fazem carinhos na alma.

A sensação de bem estar vem com um dia de sol. Uma simples espera por um café na padaria. Mas não é qualquer café. Tem o café, os carros passando, e a moça que passa com o filho logo cedo, e aquele senhor que não tem dias cheios, mas que, mesmo assim, passa apressadamente para algo ou para alguém. Peço um suco, e fico admirando as pessoas que vem e vão. E de repente, meu café da manhã se transforma em risos e sorrisos. E o vazio preenchido.

Eu gosto de tomar o tal café na padaria. E gosto de andar pela rua como se ela fosse somente nossa. Gosto de almoçar no mesmo lugar e dizer que eu não sei cozinhar aquela comida. Gosto de ouvir você falando e fazendo planos. E eu me dou conta de que eu quero ouvir você falando e fazendo planos, em todos os almoços em que eu puder te ver comendo e falando ao telefone ao mesmo tempo.

Eu quero o café. O almoço. E a tarde de sol na praia. Eu quero mãos dadas. Eu quero te olhar e pensar que você é uma criança grande e descobrir que, apesar de tanta escuridão e confusão que teimam em nublar os meus dias, você ainda é aquele dia de sol que me acompanha e aquece a alma.


Meio fio




Equilibrando para não cair. Juntando os pedacinhos. Com calma e serenidade. Mantendo o equilíbrio porque nesse mundo de gente "coerente" e "cheia de si", a necessidade de parecer uma lady - quando tudo está desmoronando- é essencial .

Mantenha a calma, não desça do salto e seja dissimulada ao ponto de não mostrar a ninguém suas fraquezas de mulher autossuficiente e independente. Ora bolas! Você já passou dos trinta precisa demonstrar o mínimo de maturidade em diversas situações. Dê exemplos.

Que se dane.

Eu só quero o meu cantinho no lado direito da cama. E quero ouvir as minhas músicas em um loop eterno até adormecer e esquecer que o dia foi cheio demais para sonhar. Eu queria um lugar nesse mundo em que eu não ouvisse a frase de “você se expõe demais”. Quem diz que eu me exponho demais nem imagina que eu tenho o meu lado predileto no sofá e desligo todos os telefones. Tento me esconder quando esse mundo resolve triturar o meu coração.


Eu quero alguém para dizer “que tudo bem você ser assim engraçada num dia e mal-humorada no outro”. E “que tudo bem que você não teve tempo de ser a mulher mais admirável do mundo”.


E que tudo bem, apenas.

Adulta






O apartamento é como costumam dizer por aí: “apertamento”. Se eu colocar a geladeira na cozinha eu não consigo colocar o fogão. Então a geladeira vai ficar - como nas casas de antigamente - na sala. E daí? Dizem que é legal crescer e virar adulta enquanto tem um monte de gente duvidando da sua capacidade. Jeito cruel de se viver.

O quarto é minúsculo e o banheiro é frio. E o chuveiro não tem água quente. Tá queimado. Tem que trocar. Quem sabe uma sequência de banhos gelados possa curar toda a ressaca que a vida me proporcionou até então? Tudo é válido quando o silêncio ensurdecedor bate à sua porta toda noite.

Enquanto isso eu durmo em posição fetal. Como que numa desesperada vontade de voltar ao ventre da minha mãe e começar tudo de novo. Em que momento eu errei? Tem como mudar? Aí eu cubro a minha cara com o lençol porque a luz do quarto me incomoda.

Eu não apago a luz. Se eu apagar a luz do quarto é como se nada mais se iluminasse. Estou no meu escuro existencial. A luz do quarto me dá a segurança que eu preciso naquele momento. Vai ficar acesa até eu dormir.

A televisão é ruim. Quanto tempo eu vou ter que ficar vendo programas de televisão cheios de “fantasmas” nas imagens? Eu já tenho “fantasmas” suficientes que me atormentam desde a infância. Então eu vou para a sala e levo o edredom, o travesseiro e o livro que eu cismei de ler e que não tem nada a ver com a minha vida de agora. E por vezes, eu invejo a personagem do livro.

Eu odeio essas coisas de “você vai dar a volta por cima”, “depois da tempestade vem a bonança”, “você vai sair dessa”. Estou procurando “o dia depois da tempestade faz tempo”. Procuro também o “pote de ouro no fim do arco-íris”. Não existe. Vai crescer. Vai virar adulta. Ver todo mundo te virar as costas. Ver sua caixa de email vazia. E o seu telefone sem tocar.

Para virar adulta você tem que se alistar ao exército e ir para a guerra. E não se esqueça de voltar viva. Mas não se preocupe, se você não conseguir, vai ter medalha de honra ao mérito e muita gente vai dizer, quando não for mais preciso, o quanto você era “especial”, “cheia de vida” e “inteligente”.

Para virar adulta tem que ter decepção. Choro. Banho gelado. E diversas olhadas no espelho do banheiro para “treinar” sua cara de felicidade e autossuficiência do dia seguinte.

Para virar adulta você tem que fechar a porta do apartamento várias vezes. Olhar na janela para ver se tem alguém esquisito na rua. Fazer chocolate quente e não dividi-lo com ninguém.

Para virar adulta você tem que ser cúmplice do seu medo e finalmente apagar a luz do quarto.

Não







Eu não acredito em amores infinitos. Amores à primeira vista. Não acredito que alguém vá me querer eternamente e que vá me amar mesmo que eu seja a pessoa mais dramática e insuportavelmente exagerada do mundo. Não espero que alguém me jure salvação desse mundo melancólico. Não espero ligações ao fim do dia e nem “bom dias” por sucessivas manhãs.

Não me ame. Não me espere. Não peça para ir até você. Não me queira. Não me deseje nem por um segundo. Não diga que eu sou linda no final do dia. Não seja romântico e não me queira sempre por perto. Não me jure amor eterno. Não me seduza ao ponto de só querer seus beijos e seus olhares.

Não quero você aos meus pés. Não quero loucuras de amor. Não quero presentes. Não quero ligações longas, risadas e muito menos conversas ao pé do ouvido. Não quero segurar a sua mão enquanto eu espero o jantar. Não quero que você prometa me fazer feliz.

Não quero promessas. Ilusões. Sonhos acordados e planos para o futuro. Não me prometa o “para sempre”. Não diga que eu sou a única ou a preferida. Não me mostre músicas que lembrem nós dois. E por favor, não sorria com o sorriso mais lindo do mundo, enquanto eu me derreto por dentro, e diga que vai ficar tudo bem.

Tantos motivos para não sentir nem um milímetro desse sentimento patético e ao mesmo tempo mais poderoso do universo. Tantos motivos para não permitir a existência dessa loucura que é senti-lo, alimentá-lo, cultivá-lo. Mas ele insiste em ficar. Insiste em insistir.

Mas daí eu vou me enganar mais uma vez de que eu não preciso de nenhuma promessa sua. Vou fingir que eu nem te amo mais, como se não te amasse sempre... E num belo dia, numa conversa banal, você diz que o nosso “amor estava escrito nas estrelas”.

E a partir daí - às gargalhadas - eu transformo todos esses “Nãos” em “SIM”.








Eu sou






Exagerada. Dramática. Pensativa. Interativa. Música. Rock. Livros. Filmes. Estudos. Trabalho. Insistente. Persistente. Risos. Muitos Risos. Sou os amigos que eu tenho. As piadas que conto. Choros. Silêncio. Barulhos. Extremos. Olhares. Dúvidas. Certezas. Guitarras. Shows. Sol. Verão. Praia. Mar. Cabelos ao vento. Jeans. Camiseta. Tênis. Óculos escuros. Mais futebol do que novela. Intuição. Paixão. Amor. Passional. Ansiedade. Sorriso. Cumplicidade. Saudade. Fé. Esperança. Boba. Olhos fechados. Corrida. Desenhos. Criança. Mãe. Mulher. Amiga. Abraço. Conversas intermináveis. Professora. História. Família. Botafoguense. Textos. Blog. Sonhadora. Provocadora. Contramão.  Socialista. Recomeço. Transformação. Metamorfose.


Não quero uma vida pequena. Meus exageros não cabem dentro de uma ordem. Estou nesse mundo para sentir. E tenho dito.

Drama






Se fosse possível, eu guardaria esse amor em uma caixa bem bonita para que ele nunca desaparecesse. Mas daí vem imediatamente a vontade de guardar você só para mim e assim você nunca ir embora. Nunca. Mesmo que eu esteja dramática demais para você aturar.

Preciso te falar que eu intensifico o meu drama com você. Meu amor por você é um texto dramático de uma novela mexicana. Muito choro. Muito drama. Muito amor. Suspiros.

Descobri que eu preciso de um manual de sobrevivência desse amor. Do qual não faço a mínima ideia de como controlar. Eu tento, sabe? Mas a minha parte dramática não me deixa comprar um pão na padaria sem olhar a frase bonita de amor colada na parede e não pensar em você. Puro drama.

Talvez não sejamos perfeitos juntos. E daí? Você me faz rir. Sorrir. E você me faz fechar os olhos várias vezes ao dia e sorrir novamente. Eu quero ser imperfeita ao seu lado. Eu quero sempre encontrar o seu olhar quando eu precisar ser olhada por você. Eu quero esse segundo de perfeição, no meio da imperfeição dos meus dias.

Acho que no fundo, bem no fundo, eu não nunca quis ser perfeita para você. Eu quero sempre que você me queira “consertar”. E infinitamente me moldar. Quem sabe assim você nunca vá embora. Quem sabe assim, na insistência da minha imperfeição misturada com certas horas de sorrisos e olhares perfeitos, eu te tenha sempre por perto. 

A sua mão






Em uma tarde de chuva você me deu a mão. A sua mão. A sua tão esperada mão. Algo tão simples, mas tão sublime para quem sabe o que isso representa: O dar as mãos. O se doar as mãos. O segurar das mãos.




Você me deu a mão e eu não precisei de mais nada. Mais nada além da sua mão na minha. Sentindo a chuva. E a inevitável hora de ir embora. Mas nada mais importava porque eu desfilei ao seu lado de mãos dadas. Entrelaçadas. Enroladas. Nossas mãos.

No final de tudo. Por trás de todos esses amores moderninhos, e descolados, e espalhafatosos, e desnecessários... No final de tudo, eu só queria andar de mãos dadas. Sentir-me acolhida. Importante. Um cuidado que nem todos têm. Que nem todos são. Que nem todos irão experimentar na sua essência.

Você me deu a mão. E eu ri. Por fora. Por dentro. Eu ri pelos olhos. Olhei todas aquelas pessoas na contramão e desejei que elas também tivessem alguém – como você – para segurar as suas mãos do jeito que você segurou a minha.

Você me deu a mão, e isso foi amor.



Eu não preciso de você





Eu não preciso de você. Não preciso. Não preciso para nada. Nem para acordar, para levantar, para trabalhar e muito menos para sobreviver. A minha vida não depende de você para seguir o seu rumo.

Eu não preciso. Mas quero precisar. Aliás, eu não preciso de você nem para pagar as minhas contas, mas preciso de você me acompanhando na fila do banco. Eu não preciso de você para trabalhar, mas preciso receber a sua ligação no decorrer do meu dia. Não preciso de você nem para fazer um café pela manhã, mas tomá-lo ao seu lado é o melhor da vida.

A minha cara de sono tem mais beleza se você puder olhá-la – e lembre-se – não preciso de você para dormir e nem para acordar. Não preciso de você para ser feliz. Mas a minha felicidade com você ao meu lado se completa.

Não preciso de você para esboçar um sorriso, ou dizer uma piada. Mas o meu sorriso com você se ilumina e a piada fica muito mais engraçada. As minhas músicas preferidas já existiam antes de você, nunca precisei de você para ouvi-las, mas depois da sua presença a melodia ficou mais bela e os solos da guitarra ficaram mais perfeitos.

Eu sei que eu não preciso. Também sei que o fato de eu não precisar e te querer sempre por perto é a demonstração do quanto você é essencial – não por uma questão de sobrevivência - mas por uma questão de amor.

Precisar de você eu não preciso. Mas querer precisar de você é a minha escolha.







Tudo fora




Ninguém me conhece. Ninguém sabe realmente o que eu sinto. Acham que sabem, mas não. Essa gente que se diz solidária não enxerga um palmo a sua frente. Não enxergam. Não sentem. Não percebem nem se alguém esfregasse um punhado de sentimento no nariz.

Cansada dessa gente que diz que tudo passa. Que temos que nos reerguer. Não é fácil se reerguer quando se tem o peso do mundo nas suas costas. O peso do mundo inteiro. O peso do mundo inteiro e o peso de gente chata, opressora e hipócrita junto.

Eu quero vomitar tudo. Colocar tudo pra fora. Tudo fora. Toda essa gente fora. Toda essa gente que acha que sabe o que está dizendo. Cansada dessas frases feitas, vazias e iguais, que saem da boca de gente vazia e igual.

Eu não quero ser igual. Eu não preciso ser igual. Eu nunca fui igual. Eu não quero fazer parte da corrente inexpressiva de gente inexpressiva.

Cansada dessa gente que te promete todos os amores do mundo. Mas não te enxerga. Não te entende. Não te sente. Não vê que você está implorando uma atenção. Um olho no olho. Merda de amores prometidos. E confusos. E passageiros. E que te deixa vazia. E igual.

Eu quero tudo fora. Tudo fora. Todos esses amores iguais. Indiferentes. E autossuficientes. E autoconfiantes. E igualmente vazios e iguais.

Cansada desses amores que te exigem uma confiança. Quando na verdade o amor é inseguro. E não me venham com essas frases feitas sobre amor. Não há amor verdadeiro sem o ridículo. Não há amor verdadeiro sem se mostrar. Não há amor verdadeiro sem dizer que ama 50 milhões de vezes por dia. E que se dane ser piegas. Que se dane. E que se dane, mais uma vez. O amor não é igual. O amor é o diferente da vida.

Eu quero tudo fora. Todos esses amores controlados. E milimetricamente demonstrados. Eu quero fora esse vazio de coisas não ditas. Eu quero tudo fora. Tudo fora. Eu quero fora a dúvida. Eu quero fora a espera. Eu quero fora. Tudo fora.















Pedestal







Eu tenho um turbilhão de sentimentos presos dentro de mim que eu não entrego para ninguém. Ninguém jamais conseguiu tirar todos os fantasmas que existem dentro de mim. O lance de subir num pedestal e orquestrar toda uma vida com o ar de ser superior ao amor alheio. O lance de ser superior. O lance de não doar nenhum milímetro de amor que existe dentro de mim e no alto do meu pedestal: Não fui. Não dei. Não entreguei.

Eu fui um mendigo ao contrário. Eu vaguei pelo mundo eu não pedi. Eu não pedi amor de ninguém. Eu não implorei. Eu não quis ser ajudada. Eu não quis sentir o que o resto do mundo ao meu redor sentia: aqueles lances de amor. Eu não quis o amor de ninguém, simplesmente porque eu não acreditava no amor de ninguém. O lance do pedestal, da superioridade, da indiferença. Eu me protegi. Eu não quis.

Dia após dia vários amores alheios surgiram e imploraram o amor que ficava em cima do pedestal. Não dei. Não pedi. Eu não quis. Não acreditava em pessoas gentis. Em príncipes encantados – e continuo não acreditando.

Mas algo mudou. O salto quebrou. Os olhos se voltaram para baixo e o pedestal ficou tão alto e tão vazio. O lance de estar no alto e não ser atingida não tinha mais propósito. O querer ser atingida. Ficar na mira. Descer. Pedir. Implorar. Sentir tudo o que se teve medo de sentir a vida toda. Eu desci do pedestal e entreguei tudo o de melhor e de pior para alguém que nunca pediu nada para mim.

Aí eu tento empurrar as minhas “ofertas”: “Me leve, me ame, me olhe. E me ame por tudo o que for mais sagrado. Tá ‘barato’. Amor igual a esse você não vai encontrar em nenhum outro lugar. Esse amor caiu bem em você. Leve, leve, leve, leve, me leve, me suporte, me entenda, me ame, não me devolva para o pedestal”.

E no meio de tudo e de todos, por mais egoísta que isso possa parecer, entreguei o meu amor a quem eu quis. Não a quem me pediu. A quem me implorou. E sigo fazendo ofertas diárias desse amor por puro medo de voltar à minha “superioridade amorosa” de milhões de metros quadrados vazios.
























O amor chegou



O amor chegou. O AMOR com letras garrafais está aqui. Dentro de mim. E nada nesse mundo me fará desistir dele. Não haverá distância, dificuldades e muito menos cara feia. Nada nesse mundo me fará desistir de sentir esse AMOR em maiúsculo.

Não importa se eu não estava esperando. Não importa se eu tinha outros planos. Não importa. Ele chegou. Eu não tive tempo de me preparar, de arrumar o cabelo, de parecer mais bonita. Ele chegou e pronto.

Invadiu a minha vida. Invadiu meu coração. Apresentou o inferno e o paraíso. Chegou com um turbilhão de sentimentos. Reviravolta. Terremoto. Ternura. Doçura. Calmaria. Suspiros. Sorrisos fora de hora. Saudade. Admiração. AMOR.

Amor multiplicado. Eufórico. Forte. Inseguro. Louco. Diferente. Acelerador de batimentos cardíacos. Amor bobo. Cúmplice. Discreto. Inconsequente. Amor sem igual.

O amor chegou. Tímido. Sorrindo. Educado. Singelo. Transparente. Despretensioso. Inteligente. Delicado. Impulsivo. Engraçado. Apaixonante.

O amor chegou para ser chamado de meu. Apenas para ser chamado de meu...



Eu não quero te odiar





O futuro é logo ali. E eu tenho medo de você não estar presente nele. Eu tenho medo de que tudo que eu ame vá embora. Talvez porque eu já tenha percebido que crescer é perder um pouco as coisas: pessoas, inocência, esperança, amor...

Mas eu tenho medo de você não estar comigo daqui a dez anos. Daqui a um mês. Eu morro de medo de você não estar comigo semana que vem.

Eu tenho medo porque o amor ficou descartável. Medo de ser trocada, como aquela moça que foi substituída por outra, na foto daquele casal que eu tanto admirava. E não tinha duas semanas que “ela” trocava juras de amor com “ele” pela rede social.

Fiquei com medo de ser trocada igual. Igual a uma amiga que foi trocada semana passada. Igual àquela outra que chorou ao telefone por não ter quem ela queria por perto. E também aquela vez quando eu tinha doze anos e vi uma moça chorar em frente ao meu colégio, e era por alguém. Eu tinha doze anos e não entendia por que alguém chorava daquele jeito por outra pessoa. E naquele dia eu disse pra mim mesma, aos doze anos, que eu nunca iria chorar por alguém daquela maneira.

Naquele momento eu parei de acreditar que tudo era para sempre. Principalmente os amores. E que príncipe encantado não existia porra nenhuma. Eu tinha doze anos e comecei a construir os meus “muros” naquela hora.

Só que agora, depois de muito tempo, eu sinto medo ser a próxima a chorar a ida de alguém. Eu tenho medo de chorar por você. Eu tenho medo de te odiar porque você foi embora. E eu não queria te odiar. Eu não quero motivos para te odiar. Não quero falar mal de você para ninguém. Não quero motivos para te largar e nem para você ir embora. E eu não quero que você vá. Nem hoje. Nem nunca.

Eu voltei aos doze anos, e estou dizendo praquela menina em frente ao colégio que não adianta construir os seus “muros”, porque os “muros” não são imunes ao que chamamos de “amor”. Não adianta se proteger a vida toda. Um dia nós iremos chorar, ou pelo menos ter medo de chorar por alguém.

E por mais que eu chore. E por mais que você vá embora. Eu não quero que você vá embora me magoando. Eu não quero mudar o que eu sinto por você. Eu não quero trocar a beleza do meu sentimento pelo amargo da ida.

Mesmo que tudo isso não dure para sempre. Mesmo que acabe mês que vem. Eu não quero que nada destrua o que eu sinto por você. Eu não quero te odiar.
















Que a verdade seja dita








As pessoas não suportam ninguém de verdade. A verdade dói. Alguém de verdade dói. As pessoas preferem te olhar de cima para baixo. De baixo para cima. E tudo fica muito melhor assim. Ser de verdade dói. Repito: ser de verdade dói.

Se você é de verdade, você vai ser rotulado de descontrolado. As pessoas querem o controle. Você não pode demonstrar o mínimo de carinho ou amor ao próximo. As pessoas que, odeiam alguém de verdade, se ofendem. Os frustrados se ofendem. Os frustrados criam conspirações para suas palavras. Para os seus gestos. Para a roupa que você usa. Para um papel no chão que você pega. Os frustrados são frustrados. E não tem escolha. Escolha temos nós, os de verdade.

Os frustrados descontam suas frustrações amorosas em coisas banais. Eles se incomodam. Incomodam-se com a sua verdade. Com a sua transparência. Ser transparente ofende aos frustrados. Você precisa ser reto. Firme. Os frustrados agradecem.

Se você é de verdade, você com certeza será julgado, pelos frustrados. Se você é bonito, feio, rico, pobre, bem sucedido: Você nunca vai prestar, os frustrados se ressentem.

As frustradas no amor se ressentem com mulher “bonita” que dê “sinais de vida”. Elas se mordem. Porque não conseguem segurar alguém de verdade. Frustram-se. Incomodam-se. Engolem. Sim, engolem. Porque quem é de verdade não se incomoda. Quem é de verdade não liga para ressentimentos, frustrações, rancores.

Os frustrados na vida reparam a vida alheia. Reparam o que você fala. O que você faz. O que você produz. O que você escreve. Se você fala pouco, não tem cultura. Se você fala muito, é invasivo. Se você se mostra, é oferecido. Se você se fecha, é vazio.

Os frustrados não se decidem. Até porque eles estão muito preocupados em exaltar suas “ações” do que tomar uma decisão: se te amam, ou te odeiam.

Ser de verdade dói. Qualquer gesto é milimetricamente acompanhado pelos frustrados. Os frustrados acham que sabem da sua vida. De quem você gosta. De quem você deseja. Por quem você sofre. Pra quem você se oferece. Mas na verdade, os frustrados não sabem. Eles apenas vomitam a suas conspirações medonhas. Vomitam a derrota, a falta de amor, a falta de vida, a atenção que não recebem...

Ser de verdade dói. Os frustrados se ressentem.



Saudade






Sentir saudade é sempre pela primeira vez. Você pode ter sentido milhões de vezes em toda a sua existência, mas nunca vai ser igual. Eu senti saudade ontem. Senti anteontem. Senti há dez, vinte, trinta dias. Senti diariamente por todos esses dias. A saudade vem e bate o seu ponto como uma registradora automática.

Mas a minha saudade de hoje é primeira. É maior. Mais sufocante do que a de meses atrás. E sentir saudade vai ser sempre essa história de levar um soco na boca do estômago. E dói. E me acompanha. Machuca. Eu fujo, mas ela sempre aparece na minha frente, ou pelos lados, ou por dentro, ou por todos os poros da minha pele.

A saudade sempre aparece nas risadas altas dos meus amigos. Nas ruas lotadas de gente estranha e fechada. E no garçom que se esqueceu de trazer a conta. E no trânsito que estava insuportável. E na chuva fina de outono. E no filme dos anos 80. E naquela música. E naquela outra música. E naquela milésima música. E naqueles minutos antes de dormir. E naqueles minutos depois de acordar. E no despertador que toca. E a cara da saudade que eu arrasto infinitamente pelo meu dia atribulado e em todas as coisas chatas e estressantes que insistem em gritar e me mostrar que o que torna tudo muito, muito chato é a ausência...

E ninguém está nem aí para o que eu sinto. Ninguém. Tantos e tantos problemas que envolvem coisas muito mais sérias, e tristes, e infinitamente desgraçadas, e insuportavelmente bizarras, e justamente mais importantes e urgentes, e a camada de ozônio, a corrupção, e a crise na Europa, e as causas ambientais, os tsunamis, as decisões do STJ, e salário mínimo, as injustiças mundanas e tantos, tantos e muitos tantos outros problemas universais e urgentes e primeiros.

Mas saudade é egoísta. É inoportuna. A saudade não está nem aí se a água do planeta está acabando. Se o síndico do prédio aumentou o condomínio. Se há milhões de coisas importantes para fazer. Se há contas para pagar. A saudade ri dos meus problemas. Ela chega a qualquer lugar, a qualquer hora e está pouco se importando sobre os problemas mundiais. Ela está preocupada em me preencher do sentimento impotente que é senti-la. Ninguém liga. A saudade não liga. O mundo inteiro está girando. E a saudade está girando em torno do meu umbigo e insistentemente me faz olhar para ele. E eu olho. E eu me torno uma pessoa egoísta preocupada somente em satisfazer essa saudade egoísta que me torna a mais egoísta das egoístas do bairro, da minha cidade, da face da terra e de todos os planetas descobertos e desconhecidos.

Mas ninguém liga. Quem liga que eu ando com uma tatuagem de saudade no peito? Cheio de você. Cheio dessa vontade de matar essa saudade da maneira mais pura e inocente do mundo: apenas te olhando.

Olharia por horas. Por dias. Eu olharia até me encher de você. Infinitamente te olharia. Sem parar. Eu te gravaria. Tatuaria nos meus olhos, para nunca mais sair. Para nunca mais ir embora. Para nunca mais precisar encher meus dias vazios de milhões de coisas para suprir o abismo dentro de mim. Para nunca mais precisar escutar músicas melancólicas e para nunca mais precisar fechar os olhos pra te procurar.





Vazio







Por mais que o seu dia seja rodeado de amigos muito empenhados em te fazer sorrir, o seu sorriso não é como o de quando você está perto dele. Não é. Não será. Talvez nunca seja.

Esse eterno querer desgraçado que te acompanha. Querer. Querer. QUERER EM MAIÚSCULO. Que não acaba nunca. Nem nas noites mal dormidas, nem nos dias mal acordados. Nem nos dias mal vividos.

É um sufoco do tamanho de um universo inteiro sentir esse vazio de mil vazios. Vazio que não para. Que não preenche. Que não te deixa nem por um minuto.

O maior suicídio que você pode cometer na sua vida é colocar suas expectativas amorosas em um único ser humano, sabe? Humanos falham. Enjoam. Sentem que não há mais graça em nada que te rodeia. E eles se fecham. Calam-se. E você percebe que entregou seu coração de bandeja para ser esmagadinho com a mão esquerda. Ou direita, sei lá.

O amor é esse eterno vazio. Vazio de desencontros. Vazio de pares errados. Vazio de silêncios premeditados. Vazio de recuos estratégicos.

Nós sempre queremos o “para sempre”. Mas o “para sempre” é pesado demais. O “para sempre” é perigoso demais. O “para sempre” é irresistível...

Pois eu te falo que eu te amaria com a dor de mil anos. Milhões de anos. De milhões de “para sempre”. Exageradamente “para sempre”. Compulsivamente “para sempre”.

Nunca se é forte o suficiente para resistir. Mesmo que o “para sempre” não exista. Mesmo que essa história toda de “felizes para sempre” seja apenas demonstrações manjadas de comédias românticas. Nunca se é forte para resistir. Nunca.

O amor nos torna previsível




Previsível. Absolutamente previsível igual a todo mundo. Ou igual a ninguém. É isso. O amor nos torna previsível. Lamento informar, mas nós somos as pessoas mais patéticas do mundo quando se trata de amor. Como já dizia Cazuza “o amor é o ridículo da vida”. Ridículos, previsíveis, patéticos.

Você vai “descer do seu pedestal” e vai dar o braço a torcer de que está amando alguém loucamente. Vai rir às 05:30 da manhã na mesma intensidade que às 2 da madrugada. Vai olhar pro seu celular umas cem vezes como se a pessoa - objeto do seu desejo - fosse se transfigurar e se materializar na sua frente. Vai andar na rua na contramão de todo mundo lembrando-se do último encontro e vai olhar pro celular mais uma vez, a milésima talvez.

Vai achar o dia mais bonito. O seu trabalho mais importante. E você vai perceber que nem é tão ruim ser considerado “patético” pelos outros. O amor é patético. Porque tem que ser assim. Não existe a racionalidade “nessas coisas de amor”. Coloca na gaveta a razão. Não serve mais. Porque o que você menos vai precisar é ser racional quando sentir suas pernas tremerem e seu coração disparar quando estiver diante do seu olhar preferido. E vai haver um olhar preferido sim. Um abraço preferido. Um lugar preferido. Um toque preferido. Um jeito de beijar preferido. Um número de celular preferido. Um tom de voz preferido. Um cheiro preferido. Um amor único e preferido.

Você vai se tornar um estúpido previsível. Vai sentir ciúmes de coisas insignificantes. Mas vai entender que o ciúme é muito menor do que o medo de perder. O medo de perder é que vai te fazer ganhar algumas tantas noites sem sono. E vai lembrar que nem tudo na vida é como deveria ser, certinho. E nada é. Mas não vai desistir só por causa da dificuldade, porque o que está em jogo é viver o resto do que te resta sem o seu olhar preferido. E como se vive sem olhar todos os dias o seu olhar preferido? A gente aprende.

Aprende porque a distância existe. E a saudade é bem mais insuportável do que imaginávamos. E vamos ser ridículos porque vamos invejar outras pessoas que estão sendo olhadas pelo seu olhar preferido, estão sendo abraçadas pelo seu abraço preferido, e estão ganhando a atenção que era para ser sua. Mas o que é o amor sem uma dose certa de sofrimento? Sem a dose certa de insistência? Sem os exageros que teimamos em exagerar ainda mais?

O que é o amor sem o ridículo, sem o patético, sem o estúpido. E se não for para tirar seus pés do chão. E se não for para desejar aquele famoso “que seja infinito enquanto dure” misturado ao “e viveram felizes para sempre” não é amor.